Livro vs. Filme: “Memórias de uma Gueixa”

“Uma história como a minha não é para ser contada”. É com essa frase que se inicia o filme “Memórias de uma Gueixa”. O livro começa um tanto diferente, mas dadas as polêmicas geradas por sua publicação, talvez o Arthur Golden devesse ter começado seu livro da mesma maneira. E o filme – que chegou ao catálogo da Netflix esse mês – não foi por um caminho diferente, não. Acompanhe a seguir as curiosidades da comparação entre o livro e o filme “Memórias de uma Gueixa”.

Arthur Golden entrevistou Mineko Iawasaki, a gueixa mais famosa do Japão – reconhecida com tal mesmo depois de sua ocidentalização, que ocorreu quando o país perdeu a segunda guerra mundial em 1945 – para desenvolver seu bem-sucedido romance sobre uma gueixa de olhos azuis. Mas o que começou como uma interessante história sobre uma parte belíssima, secreta e delicada da cultura japonesa terminou com um belo de um processo.

No início dos anos 90, a gueixa cedeu uma entrevista ao escritor estadunidense, sob condições de anonimato – que como percebemos, não foram cumpridas, pois além da clara inspiração em Mineko para Sayuri, o livro continha agradecimentos direcionados a ela – porém Mineko entendeu que o livro não fazia grande distinção entre as gueixas e as mulheres da prostituição. Além disso, o livro proposto por Golden seria “sobre gueixas”, mas em vez de mostrar as tradições desse recorte da cultura japonesa, Golden escreveu sua própria narrativa fantasiosa, para despertar o interesse dos leitores. Mineko exigiu que o autor corrigisse as inexatidões e lançasse o livro novamente e quando ele se recusou o impasse foi parar nos tribunais. A vitória foi da gueixa, que recebeu uma considerável indenização por danos morais e lançou seu próprio livro de memórias: “Minha Vida Como Gueixa”.

Onde estão as diferenças entre livro e filme?

O livro foi lançado em 1997 e o filme homônimo chegou aos cinemas em 2005. Como sabemos, há mais espaço para contar uma história em cerca de 445 páginas do que em 1h 30min, por isso no livro vemos claramente como as coisas aconteceram de forma mais lenta da infância a adolescência de Chiyo (Suzuka Ohgo), até que ela se transformasse na belíssima gueixa Sayuri (Zhang Ziyi). Além disso, suas provações durante o processo são mais numerosas e detalhadas. E desde criança, a pequena Chiyo já se vingava dos ataques da cruel Hatsumomo (Gong Li), por exemplo, colocando cocô de pardal em seus cremes de beleza.

Ao conhecer Mameha (Michelle Yeoh) e ser adotada por ela como aprendiz, Chiyo finalmente começa seu treinamento de gueixa. Mas o arranjo acontece com algumas diferenças: segundo o filme, Mameha se propõe a pagar a escola de gueixas de Chiyo, na condição de ser a única participante de seus ganhos futuros. O livro é um pouco mais realista, já que um gueixa bem-sucedida cobra muito caro para ser tutora de uma maiko – uma gueixa aprendiz – e o que Mameha faz é oferecer um preço que seria mais vantajoso a longo prazo para Nitta e sua okiya quando Chiyo se tornasse gueixa, em vez de mantê-la como escrava.

Um ponto deixado de fora do filme é o destino de Satsu (Samantha Futerman), irmã de Sayuri: depois que a pequena Chiyo não consegue fugir com ela. Segundo o livro, na mesma carta que informa a morte de seus pais, a menina também fica sabendo que sua irmã conseguiu voltar para Yoroido, onde conheceu um pescador com quem fugiu e então não se teve mais notícias de Satsu.

Outro final diferente é o de Hatsumomo. No romance, Hatsumomo é descrita como mais impressionante do que uma boneca, tendo a pele muito clara e de pequena estrutura óssea, o que a faz parecer adorável. Isso contrasta com sua imagem no filme, já que sua interprete, Gong Li, é bastante alta e a personagem tem uma postura mais exuberante e intimidadora.

A antagonista de Sayuri, que é sorrateira e cruel em ambas as versões, fazendo de tudo para impedir seu sucesso como gueixa, teve um desfecho mais obscuro no livro, diferente do filme no qual ela apenas é expulsa da okiya após tentar incendiar o lugar e segue para um destino desconhecido. O livro descreve de forma suave como hatsumomo começa a enlouquecer e apresentar episódios de desequilíbrio mental e agressividade. Quando Hatsumomo finalmente cede à sua insanidade e autodestruição, ela é expulsa da okiya, sendo sugerido que mais tarde ela sobreviveu à segunda guerra mundial e acabou se tornando prostituta.

Falando em personagens de importância na trama, Nobu (Kōji Yakusho), o amigo e sócio do Presidente (Ken Watanabe), também diverge em suas versões do livro e do filme. No longa, Nobu tem uma cicatriz de queimadura bem aparente na face e pescoço. Já no livro, parte de seu rosto é desfigurado por uma explosão ocorrida durante a guerra da Manchúria, evento que também o fez perder um braço. Na publicação também é Nobu quem consegue abrigo para Sayuri quando a guerra começa, mas só depois que a gueixa o procura para pedir ajuda.

Seus sentimentos por Sayuri também são muito mais explícitos no livro e sua rejeição implica em uma grande questão emocional para ele e para Sayuri, o que nos leva a outra grande dicotomia entre as obras: a questão do danna.

O danna – que em japonês significa “patrono” – é um cliente que decide assumir uma gueixa como amante exclusiva e arcar com os custos de sua vida. O filme sugere que é algo definitivo, uma espécie de “matrimônio” e por essa questão Sayuri não queria aceitar Nobu como seu Danna, pois a deixaria indisponível para o presidente, que é real interesse amoroso, para sempre. Porém na realidade e também no livro não é bem assim que as coisas funcionam. Um Danna nunca é definitivo, é um contrato temporário, geralmente renovável mês a mês e pode ser rompido por ambas as partes. Além dos custos, o danna também deve presentar sua gueixa com quimonos, perfumes e adornos, caso ela se sinta insatisfeita, pode também espalhar a informação que o cliente é um péssimo danna e ele terá dificuldades em conseguir outra. No livro, Sayuri teve alguns dannas ao longo de sua vida, antes do presidente assumir o posto.

Outra diferença relevante é a cerimônia do “mizuage”, ou o “leilão da virgindade”. O filme expressa um grande sofrimento emocional de Sayuri ao passar por esse momento. Já o livro trata da situação com mais leveza, na qual a protagonista descreve o momento como rápido e sem importância, cuja maior reação que lhe causou foi uma crise de risos.

E por fim, literalmente, a conclusão da história: enquanto o filme termina com o encontro entre Sayuri e o presidente, onde ambos declaram seu amor, o livro isso vai muito além, com o presidente se tornando o danna de Sayuri e eles se mudando para Nova York, onde tiveram um filho ilegítimo, já que ele permaneceu casado com sua esposa no Japão.

Agora, quanto as polêmicas do filme…

Se na opinião de Mineko Iwasaki, o livro transformou as gueixas em prostitutas, uma diferença que os ocidentais raramente entendem, o filme por sua vez foi duramente criticado pela comunidade japonesa. O time principal de personagens, Sayuri, Hatsumomo e Mameha, não é interpretado por atrizes japonesas: Zhang Ziyi (Sayuri) e Gong Li (Hatsumomo) são chinesas e Michelle Yeoh (Mameha) é malaia.

O diretor de cinema chinês Chen Kaige – que recebeu o prêmio Palma de Ouro por “Adeus, Minha Concubina” em 1993 – apontou que os movimentos e expressões faciais exigidos estão muito enraizados na cultura japonesa para serem interpretados por estrangeiras. O fato do filme ter sido dirigido por um estadunidense também gerou nos japoneses um sentimento de falta de identidade cultural do filme. E não somente isso: as cenas de dança foram consideradas incorretas, os quimonos foram alterados para serem mais sexy e a maquiagem branca também foi amenizada, e certos momentos até mesmo retirada, para agradar ao público ocidental.

O elenco também foi criticado na China, onde um site atacou Ziyi por aceitar o papel de uma prostituta japonesa – pelo visto, Mineko estava coberta de razão – além da estranheza causada na população chinesa devido às circunstâncias da Segunda Guerra Mundial, quando milhares de chineses foram vítimas das forças japonesas.

Palavra final do NEXP:

Infelizmente temos que concordar que as críticas são justas. Tanto a crítica de Mineko Iwasaki, sobre a retratação das gueixas no livro, quanto a crítica da comunidade japonesa sobre o filme. O próprio diretor Rob Marshall reconheceu as dificuldades da produção, inclusive colocando os atores numa oficina de seis semanas sobre a cultura das gueixas e chegou a comentar durante a pré-estréia que espera mudar a ideia ocidental de que as gueixas são apenas prostitutas chiques. Seria esse um apoio a crítica de Mineko ao livro? Apesar dos pesares, tanto o livro quanto o filme foram bem-sucedidos com o público e com a crítica especializada e admitimos que são obras belíssimas e primorosamente executadas, livro e filmes apresentam a narrativa com requinte. Sugestão: como se trata de uma obra ricamente detalhada, o ideal é começar pelo filme e depois se surpreender o tanto de informação a mais que o livro possui.

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